Morei no Rio de Janeiro durante os anos de pós graduação. Voltei,
com meu filho, pela primeira vez, nesses 14 anos.Fui leva-lo a um show de rock.Fui como
acompanhante, sem obrigações. Só aproveitar o mar e o sol.
Imaginei, porque me afastei tanto dos meus sonhos!
Eu planejei voltar anualmente ao Rio de Janeiro anualmente. E, na
velhice queria voltar a morar no Rio.
Também poderia ser Paris ou Buenos Aires.Não poderia ser a
minha cidade.Vivi aqui, nasci aqui, fui, voltei, mas continuo sentindo-me uma forasteira.
Estou descobrindo que não é só a cidade, sou eu que não me
adapto com a vida, pouco importa a cidade. Prefiro colocar a minha felicidade
em um lugar distante e num tempo passado ou futuro. O presente me cansa, me
paralisa.Não sei viver de realidades.Eu me nutro de sonhos e idéias perdidas.
Eu passo horas só pensando. Conjecturando, criando uma
realidade para me abrigar.
Quando eu nasci meu pai enlouqueceu. Tomou um remédio
tranqüilizante e depois bebeu para comemorar meu nascimento.Perdeu a noção da
realidade.Ficou 45 dias completamente surtado.Dizia que tinha matado sua
filhinha, tentou me estrangular.Tiveram que afastá-lo de nós duas, mãe e filha.
Foi o meu primeiro abandono. Mal cheguei ao mundo e meu pai
fugiu.Foi para seu mundo secreto.Essa foi a história que me contaram.
Minhas lembranças de infância iniciam-se com a chegada do
meu irmão. Eu tinha 4 anos.
Lembro de ir com minha avó de charrete visita-los na
maternidade. Não sou tão antiga.Já haviam automóveis.Mas, minha avó adorava as
charretes! E eu adorava minha avó.
Era uma manhã, com tempo nublado. Tomamos a charrete e o
charreteiro cobriu-nos com um tipo de toldo azul.Quanta felicidade! A sensação
de estar sendo levada por aquele animal imenso, me dava uma sensação de
liberdade. Gostava de sentir o chacoalejar da charrete, até do cheiro do
cavalo, eu gostava. Bosta de cavalo fresca...que luxo! Quem, hoje em dia
conhece esse cheiro? Hoje os carros
estão cada vez mais sem cheiros. Aliás, o mundo está perdendo os cheiros.
No Oriente Médio, os cheiros estão sempre presentes. Andando
por suas ruelas sente-se o cheiro forte de café com uma semente que eles torram
junto.Que cheiro maravilhoso!
As cidades ocidentais perderam seus cheiros e com eles
foram-se as memórias de um tempo. No Oriente o tempo parou. O cheiro de hoje é
o mesmo de milhares de anos.Mantiveram seus cheiros e seus hábitos.Sinto-me
segura nesse mundo.Tem referencial.
Eu e minha vó descemos e conheci meu irmão.Lembro de te-lo
visto através do vidro do berçário.Pensei:”tadinho tão feinho e roxinho”.Não
sabia que todos os bebês nascem assim.